Comentários Homiléticos

QUINTA-FEIRA SANTA – CEIA DO SENHOR Por 18/04/2019 - Atualizado em 15/04/2019 09h20

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1ª LEITURA - Ex 12,1-8.11-14

Este capítulo foi escrito durante o Exílio Babilônico (586-538 a.C.). Nesta época, as duas festas, a da Páscoa e a dos Ázimos, já estavam sendo celebradas juntas. A Páscoa primitivamente era a festa do nascimento das ovelhas, na Primavera. “Nesta época o sangue dos cordeiros era derramado em volta do acampamento, para espantar os maus espíritos, que poderiam prejudicar a fecundidade dos rebanhos”. Esta festa foi depois adaptada ao Êxodo. A festa dos pães ázimos era uma festa agrícola, que foi associada à festa da Páscoa, depois da reforma de Josias (622 a.C.). As duas festas juntas queriam lembrar a libertação do Egito. O mesmo Deus, que libertou o povo do Egito (séc. XIII a.C.), pode de novo libertar o povo da opressão babilônica (séc. VI a.C.). O texto de hoje é um memorial da Páscoa. Pretende atualizar a libertação de Javé, em favor de seu povo, que, agora, está oprimido não mais no Egito, mas na Babilônia. O trecho aponta para uma vida nova, para a libertação. Isso só pode acontecer através da solidariedade, do serviço ao outro, da partilha. O cordeiro ou o cabrito deve ser partilhado com todos. Nada deve ser guardado. O que sobrar deve ser queimado (v. 10). É uma festa da preservação da vida. O sangue passado na moldura das portas é sinal da proteção de Deus, contra o sistema opressor que será castigado. Carne assada, pães sem fermento e as ervas amargas, cinto na cintura, pés calçados, cajado na mão lembram a pressa, a disposição para a partida, a libertação das amarguras do Egito. É a Páscoa-passagem do Senhor. Ele vai passar ferindo o Egito e libertando o seu povo. Este memorial deverá ser celebrado como instituição perpétua. A Páscoa judaica prefigura a Páscoa cristã que conserva alguns elementos da antiga; o início de uma nova era, a partilha, a preservação da vida e o memorial da ação de Deus em favor do povo.

2ª LEITURA - 1Cor 11,23-26

A Eucaristia é um memorial das ações de Deus através de Jesus em favor do seu povo. A Eucaristia é memória viva de Jesus. É o sinal que anuncia a sua morte e ressurreição para nós, no período entre a sua partida e o fim, ou seja, a sua nova vinda. É interessante que Paulo recebe do Senhor e a transmite para a comunidade turbulenta e dividida de Corinto, para gerar comunhão e vida. É a primeira vez que se coloca por escrito a tradição do rito eucarístico. Depois vai aparecer o texto dos evangelhos com pequenas variações. A ceia eucarística ou a Páscoa cristã foi celebrada por Jesus, pela primeira vez na quinta-feira santa, exatamente, na noite em que ele foi traído por Judas. Depois da ação de graças, Jesus parte o pão dizendo que aquilo é o corpo dele. Este corpo é entregue. Naquele momento, Jesus entregava seu próprio corpo através do sinal do pão consagrado. Era quinta-feira. Na sexta-feira, Jesus entregava seu corpo real para a morte salvífica. Assim, na quinta-feira através do sinal do pão partilhado, Jesus antecipava sua morte-doação. Depois da ceia, Jesus reparte o cálice. É o sinal da nova Aliança selada no sangue de Jesus derramado na cruz. Aqui está o mistério eucarístico. O pão é o corpo de Cristo. O vinho é o sangue de Cristo. Pão e vinho são os sinais do mistério da entrega de amor por nós. É bom frisar que pão e vinho são, não apenas símbolos, mas sinal. O símbolo é apenas uma representação. O sinal é muito mais que o símbolo, pois o sinal contém a realidade para a qual ele aponta. Como a fumaça contém o fogo, assim os sinais eucarísticos do pão e do vinho contêm a vida de Jesus doada por nós. Contêm seu amor salvífico. Eucaristia é alimento de vida. É comunhão de amor em torno do Corpo de Cristo, que formamos como comunidade. Quem não vive em comunhão com a comunidade-corpo de Cristo não pode receber o sinal da comunhão eucarística.

EVANGELHO - Jo 13, 1-15

O lava-pés narra o significado da Ceia Eucarística, que é partilha de vida através do serviço mútuo. É curioso que João não narra a ceia, nem faz referência à Páscoa dos judeus, apenas diz que tudo aconteceu durante a ceia e foi antes da festa da Páscoa. É que Jesus rompe com o judaísmo, com seus dirigentes, com seu sistema opressor. Jesus abre uma nova era. Institui uma nova Páscoa, onde o serviço ao outro, a partilha, a comunhão são os elementos básicos. A introdução é muito solene. Nela se exprime a consciência clara que Jesus tem de que a hora de sua entrega total havia chegado. Ele a assume conscientemente. O verbo saber aparece diversas vezes, salientando esta consciência. Seu amor é levado à plenitude. O antiprojeto do diabo já havia se instalado no coração do traidor Judas.

O LAVA - PÉS COMO EXPRESSÃO DE SERVIÇO

Jesus tira o manto que é sinal de dignidade e pega uma toalha-avental, que é sinal de serviço. Quer dizer, o Senhor se torna servo. Não se diz o nome do primeiro apóstolo, cujos pés Jesus lavou. O evangelista quer salientar que o amor não tem preferências. Jesus faz tudo sozinho para mostrar que seu serviço é total. É total e vai até à cruz, pois Jesus, depois, retoma o manto da sua dignidade sem tirar o avental do seu serviço. Isto significa que ele volta à posição de homem livre, mas conserva sua disposição de servir até o fim. Pedro não quer que Jesus lave seus pés, pois ele não rompeu ainda com o sistema de classes. Ele é súdito e Jesus é o Senhor. Pedro ainda não aceita uma comunidade, onde todos são iguais. Ele legitima a desigualdade de classes. Mas Pedro precisa se converter, do contrário não terá parte com Jesus. É só diante desta ameaça que Pedro muda. Mas ainda entende o lava-pés como um simples rito de purificação e não como a essência da vida cristã, ou seja, serviço mútuo. O rito da purificação não diz tudo, pois Judas também participou e continuou sujo com seu antiprojeto de morte. No final, Jesus dá explicação de sua atitude. Ele é, realmente, o Mestre e Senhor, mas lavou os pés dos discípulos, para eles seguirem seu exemplo, lavando os pés uns dos outros, ou seja, colocando-se a serviço uns dos outros como um servo que não busca recompensas.

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