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Comentários Homiléticos

8º DOMINGO DO TEMPO COMUM Por Dom Emanuel Messias de Oliveira 26/02/2017 - Atualizado em 23/01/2017 11h20

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1ª LEITURA – Is 49,14-15
O capítulo 49 inicia-se com o 2º cântico do “Servo de Deus”; e uma primeira missão do servo é reconduzir o povo exilado na Babilônia à sua terra – Jerusalém (cf. Is 49,5). Deus quer restaurar seu povo disperso. Assim, o contexto é o povo exilado na Babilônia. Mas como está se sentindo este povo? Confia ainda no poder de Deus? Nosso primeiro versículo mostra o coração do povo. O povo sente que Deus o abandonou e se esqueceu dele. É comum nos profetas a imagem de Deus, esposo, e Israel, a esposa. Neste caso Israel se sente como esposa repudiada pelo marido, repudiada por causa de seus numerosos pecados. Também aparece a imagem do povo como filho como, por exemplo, em Jr 31,20 – uma imagem, aliás, muito próxima do nosso texto. Neste caso, Israel, perdido na grande cidade da Babilônia, se sente como o filho repudiado pelo pai. Mas Deus não abandona seu povo. Israel, desesperado, cria uma imagem falsa de Deus, cria um ídolo, segundo seus próprios sentimentos; forja de Deus um ídolo do seu próprio tamanho. Também nós o fazemos diante de situações aparentemente insolúveis. Esquecemos que para Deus nada é impossível (Lc 1,37) e que sua misericórdia é infinita ou que seu amor é para sempre (cf Sl 118 (117) 2-4; Sl 136 (135). A imagem do texto de hoje é belíssima. É o v.15: “Acaso uma mulher esquece o seu neném, ou o amor ao filho de suas entranhas? Mesmo que alguma se esqueça, eu de ti jamais me esquecerei!”. Com essa imagem o profeta exprime o amor sem medida de nosso Deus, rico em misericórdia e cheio de ternura. O profeta Jeremias alcança a mesma profundidade do coração amoroso de Deus com uma imagem parecida. Isaías recorre ao amor de um Deus-mãe, que jamais esqueceria o filhinho de suas entranhas. Jeremias apresenta a imagem de um Deus-Pai, cheio de compaixão e ternura. Eis o texto: “Não será Efraim o meu filho querido? Não será ele um filho tão estimado que, quanto mais dele falo, mais tenho vontade de lembrá-lo? Por ele meu coração palpita, tenho de me compadecer dele! – “Oráculo do Senhor”. (Jr 31,20). Jesus, a ternura de Deus no meio de nós, vai mostrar seu coração Divino com imagem parecida, quando lamenta sobre Jerusalém com essas palavras: “Jerusalém, Jerusalém! Tu que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne os pintinhos debaixo das asas, e tu não quiseste!” Mt 23,37).

Diante destes textos nos sentimos como um grão de areia da praia diante de um mar de infinita ternura, bondade e compaixão.

2ª LEITURA – 1Cor 4,1-5
Por questão de clareza, podemos dividir este texto em 2 partes:vv 1-2 e vv 3-5.

O povo tem que ter o cuidado em dar uma adesão de fé e confiança ao próprio Cristo e não à pessoa do agente de pastoral, padre ou bispo, porque este ou aquele tem um jeito melhor de pregar ou de celebrar. Esta preferência às pessoas e não ao Cristo estava acontecendo na comunidade de Corinto. Confira, por exemplo, 1 Cor 1,10 -18;  uns apegados a Paulo, outros a Apolo, outros a Cefas (=Pedro). Havia até o partido de Cristo, como se Cristo não fosse a cabeça do corpo, que é a Igreja. No capítulo terceiro, Paulo revela a imaturidade dos Coríntios, dizendo que eles ainda são muito “carnais”, de vida puramente humana, quando, na verdade, Paulo gostaria de estar falando para pessoas espirituais com estas divisões e preferências já superadas (cf. 3,1-5). Ele termina o capítulo 3º com estas palavras: “Portanto, ninguém ponha a sua glória em ser humano algum. Sim, tudo vos pertence: Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, o presente, o futuro; tudo é vosso, mas vós sois de Cristo e Cristo é de Deus.” (3,21-23).

Agora, dá para começar a entender o nosso texto 4,1-5, que dá continuidade ao pensamento desenvolvido nos 3 primeiros capítulos. O texto deste domingo é uma espécie de conclusão das argumentações anteriores.

Vv.1-2: Por isso é que a primeira parte começa no original grego com a palavra “Assim”, ou seja, “deste modo”, “portanto”. Paulo mostra no v.1º que os pregadores não são nada mais, nada menos que simples “ministros de Cristo e administradores dos mistérios de Deus”. E o que se pode exigir deles é que eles sejam fiéis (v. 2) a Cristo e sua mensagem nem aumentando nem tirando nada. Os ministros e administradores como Paulo, Cefas, Apolo, Dom “Fulano”, Pe. “Cicrano” somos apenas servos, empregados. Todos nós servimos a um único Senhor (v. 4; cf. Fl 2,11) - O Senhor Jesus, que “despojou-se, assumindo a forma de escravo... humilhou-se, fazendo-se obediente até a morte  e morte de cruz” (Fl 2,7-8)! A comunidade de Corinto estava transformando os servidores de Cristo Senhor em verdadeiros Senhores.

Vv. 3-5 Aqui se trata de uma defesa de Paulo às críticas recebidas da comunidade. Mas é uma defesa tranquila, proveniente da consciência serena de Paulo (v.4). Ele não se importa com o julgamento da comunidade ou de algum tribunal humano (v.3). Ele sabe que o único que pode julgá-lo é o Senhor Deus (v.4). Entretanto, Paulo pede paciência aos Coríntios para não julgarem antes do tempo. Todos devem aguardar a chegada do Senhor Jesus, que, como luz, clareará todos os mal-entendidos e manifestará os propósitos escondidos no interior do coração de cada um, sobretudo dos que estão fazendo mau juízo de Paulo com críticas improcedentes. Neste dia cada um terá o “louvor de Deus”; neste dia, cada um receberá a recompensa conforme o seu trabalho (cf. 3,8).

 

EVANGELHO – Mt 6,24-34
Primeiramente, devemos lembrar-nos de que estamos dentro do Sermão da Montanha, que abrange os capítulos 5-7. É impressionante o contraste entre o início do capítulo 4º, que descreve as tentações do demônio num alto monte, onde ele oferece a Jesus, em jejum, toda a glória do mundo (4,8-9) e os capítulos 5-7 do sermão da montanha. Esta montanha não passava de uma pequena colina na depressão mais profunda do planeta, situada aproximadamente a 200 metros abaixo do nível do mar. Aqui, em contraste com as ofertas do demônio tentador, Jesus condena todos os valores do mundo do seu tempo, dominado pelo império romano, idólatra e opressor.

O evangelista Mateus, refletindo a mentalidade hebraica, ama os contrastes e oposições. Basta lembrar a repetida frase: “Ouvistes o que foi dito aos antigos... eu vos digo” (Mt 5, 21.27.31.33.38.43). Nos dois versículos anteriores ao nosso texto (vv.22-23), lemos a oposição entre a luz e as trevas. Este contraste prepara o pensamento que exige servir somente ao Deus da luz e não ao deus do dinheiro (Mamôn = riqueza, bens, o dinheiro) e suas trevas.

Duas ideias chamam-nos a atenção, depois de uma leitura atenta do texto. A primeira é a oposição radical dos dois senhores (“senhor” em hebraico é “adôn”). Esta oposição leva Jesus a nos distanciar do maior ídolo de todos os tempos, sobretudo do nosso, o deus dinheiro, o deus mercado. Hoje o mercado é personalizado. Ele fica agitado, fica nervoso! É o deus que comanda o mundo, oferecendo tudo aos seus adoradores, que são poucos, às custas de bilhões de vidas humanas ameaçadas, oprimidas e excluídas. A segunda ideia é a insistência de Jesus no verbo “preocupar”, que é repetido 6 vezes (vv. 25.27.28.31.34 – 2 vezes).

Primeira ideia: a oposição entre os dois senhores.
A palavra “senhor” é uma tradução do grego “kýrios”, que por sua vez é a versão do hebraico “Adôn”. O termo hebraico mostra uma ambivalência, que pode designar indiferentemente Deus ou um homem. Quando Jesus, na sua genialidade fala: “Não podeis servir a dois “Adôn”, ele está usando uma palavra, que, mais do que “senhor ou mestre” (nas traduções mais comuns), pode significar Deus-Deus ou o homem. Depois, ele esclarece no final do mesmo v.24: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Mamôn, em aramaico). Mamôn designa tudo o que é objeto de apropriação pelo homem, não só o dinheiro, mas também os bens. Como Mamôn é um ídolo, poderíamos acrescentar como companheiros: o sexo, o esporte, o partido político, a bebida, a dança etc. Mamôn é o deus da cobiça. Enquanto Deus é generoso, misericordioso, gerador de vida, a cobiça é idolatria, conforme Cl 3,5. O cobiçoso não possui, mas é possuído por seus bens e suas ânsias. Enquanto Deus cria, doa , constrói; os ídolos são destruidores. O pior dos ídolos é o dinheiro, porque parece doar tudo a quem o adora, mas, na verdade, ele devora seus adoradores, exigindo tudo. Ele coisifica a pessoa e a escraviza. É por isso que Jesus insiste que ninguém pode servir a dois “Adôn”: ou vai odiar o primeiro e amar o outro, ou aderir ao primeiro e desprezar o outro. O livro do Eclesiástico deixa também clara esta oposição: “Feliz do rico que se conservou sem mancha, que não foi atrás do ouro e não pôs sua segurança no dinheiro e nos tesouros” (Eclo 31,8).

Segunda ideia: Insistência na expressão: “Não vos preocupeis”.
“Preocupar” é a tradução mais comum para o verbo grego “merimnô”, que significa estar ansioso, ficar aflito, inquietar-se, angustiar-se. Com esta repetição e insistência, parece que Jesus quer ensinar que a preocupação demasiada com as coisas terrenas é uma verdadeira idolatria. Quem quiser ser um verdadeiro servidor de Deus é convidado a um desapego radical. E é interessante que Jesus fala do desapego das três necessidades vitais para o ser humano: o beber, o comer e o vestir. Impressionante é que ele não está falando de coisas supérfluas, mas de coisas sem as quais o ser humano não pode viver. Entretanto, Jesus não nos convida à preguiça ou à acomodação, quando diz: “Não vivais preocupados com o que comer ou beber, quanto à vossa vida; nem com o vestir, quanto ao vosso corpo... (v.25) “os pagão é que vivem procurando todas estas coisas” (v.32), pois não sabem confiar em Deus. O que ele quer nos ensinar é que não devemos nos afligir, nos angustiar. Ele não nos ensina a nos despreocuparmos, mas a mudar o objeto de nossa preocupação Ele critica a preocupação excessiva de segurança, a falta de confiança em Deus. Ele quer que nos dediquemos aos valores do reinado de Deus e sua justiça. Devemos carregar em nós a certeza de que nossas vidas estão nas mãos de Deus. Por isso, revelando sua sensibilidade contemplativa, ele apresenta duas imagens lindas, tiradas da natureza. “Olhai os pássaros do céu... Olhai como crescem os lírios do campo”. O Pai do céu alimenta os pássaros e ornamenta de modo gracioso e artístico os lírios. Nem Salomão conseguiu vestir-se como um lírio do campo. E os lírios são ervas que secam de um dia para o outro. “Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje está aí e amanhã é lançada ao forno, não fará ele muito mais por vós,  gente de fraca fé? (v.30) O ensinamento é claro. É preciso que confiemos mais no Deus da vida. O importante é deixar de lado as  preocupações excessiva e buscar “em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo.” (v.33) 

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