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Artigos dos Bispos

Atenção aos pobres O Dia Mundial dos Pobres, 19 de novembro, instituído pelo Papa Francisco, deve soar como denúncia profética, diante da inexistência de prioridade nos cuidados dedicados aos que sofrem.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte - MG

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17/11/2017 - Atualizado em 17/11/2017 09h56

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O Dia Mundial dos Pobres, 19 de novembro, instituído pelo Papa Francisco, deve soar como denúncia profética, diante da inexistência de prioridade nos cuidados dedicados aos que sofrem. O descaso com o sofrimento dos pobres é a origem da multiplicação de vergonhosos cenários na sociedade contemporânea. O desafio para mudar esta cruel realidade é de todos, principalmente de quem professa a fé em Jesus Cristo.  O Papa Francisco lembra a forte palavra da Primeira Carta de São João quando destaca a recomendação fundamental: “Não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade”. Crer é amar, e o amor não admite álibis, diz o Papa Francisco. Só há um caminho para viver, de modo autêntico, a fé cristã: assumir o exemplo de Jesus e amar os pobres. Algo bem diferente do que fazem muitos daqueles que se dizem cristãos, mas deixam para segundo plano as necessidades de quem precisa de ajuda.

O amor cristão nada tem a ver com a demagogia de atos eleitoreiros, com a busca de visibilidade e reconhecimento pessoal. Menos ainda se relaciona com a tendência antiquada e antipática de tratar os pobres como reféns, buscando atender, “a conta gotas”, a suas necessidades. É preciso ter vergonha de tratar os pobres simplesmente como destinatários de algo, sem reconhecer a dignidade e o valor da vida de cada pessoa. Incontestavelmente, o amor aos pobres é mais que dever, constitui remédio para o coração: vivenciá-lo leva à cura das indiferenças que comprometem a paz. O amor aos pobres gera equilíbrio, possibilita reconhecer o sentido e o valor do outro. Esse sentido, com frequência, é obscurecido pela mesquinhez, por confortos e interesses egoístas, obstáculos que impedem compreender o próximo como irmão ou irmã.

Sábia e revolucionária é a recomendação do Papa Francisco: não se pode considerar os pobres simplesmente como alvos de um trabalho voluntário, praticado uma vez ou outra, improvisadamente. É preciso muito mais, pois a consciência social e moral da humanidade parece estar anestesiada, insensível diante dos que sofrem. Tem gente que cresce, avança nas conquistas, adquire conhecimento acadêmico, elaborando entendimentos sobre o mundo e a vida, mas permanece distante da dura realidade dos mais pobres. Consequentemente toda a humanidade perde, pois a sacralidade da dignidade humana é desconsiderada. E os desdobramentos dessa situação ficam cada vez mais evidentes, entre outros aspectos, no crescimento das muitas formas de violência que devastam, avassaladoramente, a sociedade.

A caridade, pela experiência da fé, e o sentido de partilha, pelo qualificado exercício da cidadania, têm força corretiva e formativa do caráter de cada pessoa. Contribuem ainda para que todos se percebam integrantes de uma coletividade, superando o individualismo egoísta.  A caridade e a partilha são, assim, o caminho para superar tantos desrespeitos, inclusive a falta de indignação diante das desigualdades que desfiguram a sociedade. Por isso, sublinha o Papa Francisco, é preciso estender a mão aos pobres, encontrá-los, fixá-los nos olhos, abraçá-los, para lhes fazer sentir o calor do amor que rompe o círculo da solidão. Eis o remédio que cura a indiferença, esse mal que adoece e mata. A caridade e a partilha podem devolver ao coração uma sabedoria cuja especialidade vem do encantamento pelo outro.

A pobreza convida cada pessoa a sair de certezas e comodidades que alimentam a mesquinhez e desgastam o valor essencial de ser altruísta. Por isso, mesmo com o passar dos séculos, continua exemplar a trajetória de São Francisco de Assis, testemunha da pobreza genuína. A fé deste Santo, ao fixar o seu olhar em Cristo, aponta o caminho de uma contribuição que pode ter força para mudar a história da humanidade, em meio a tantas contradições, abrindo caminhos para o verdadeiro e integral desenvolvimento humano. Sem a coragem audaciosa para erguer os pobres de seu estado de marginalização, com uma escuta amorosa e humilde do grito de quem sofre, não se dará rumo novo à sociedade, que continuará imersa nos esquemas de corrupção, nas manipulações e descalabros.

A exigência primeira para sair desse cenário desolador é criar proximidade com os inúmeros rostos marcados pelo sofrimento, opressão, violências, torturas e marginalização. Os cidadãos e cidadãs precisam de uma nova visão de vida, para vencer a miséria moral e a passiva conivência com todo tipo de injustiça. Será um verdadeiro Dia dos Pobres, passo adiante da sociedade em direção ao bem e à justiça, se esta data - 19 de novembro - for oportunidade para incomodar-se com a acumulação de riquezas nas mãos de poucos privilegiados, com a exploração humana e com as ilegalidades que acentuam a pobreza. A celebração do Dia Mundial dos Pobres contribua, assim, para efetivar o sonho de um mundo marcado por qualificado e amoroso voluntariado - todos unidos na luta terapêutica pela edificação de uma sociedade solidária, de equilíbrio, justiça e paz.

 

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