Artigos dos Bispos

Transfigurados, com Cristo, na justiça e na fraternidade! “Este é o meu Filho, escutai o que ele diz” (cf. Lc 9,35)

Dom Eurico dos Santos Veloso

Arcebispo Emérito de Juiz de Fora - MG

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11/03/2019 - Atualizado em 11/03/2019 09h13

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As leituras deste domingo convidam-nos a refletir sobre a nossa “transfiguração”, a nossa conversão à vida nova de Deus; nesse sentido, são-nos apresentadas algumas pistas.

A primeira leitura apresenta-nos Abraão, o modelo do crente (cf. Gn 15,5-12.17-18). Com Abraão, somos convidados a “acreditar”, isto é, a uma atitude de confiança total, de aceitação radical, de entrega plena aos desígnios desse Deus que não falha e é sempre fiel às promessas.

A segunda leitura(cf. Fl 3,17-4,1) convida-nos a renunciar a essa atitude de orgulho, de auto-suficiência e de triunfalismo, resultantes do cumprimento de ritos externos; a nossa transfiguração resulta de uma verdadeira conversão do coração, construída dia a dia sob o signo da cruz, isto é, do amor e da entrega da vida.

O Evangelho(cf. Lc 9,28b-36) apresenta-nos Jesus, o Filho amado do Pai, cujo êxodo (a morte na cruz) concretiza a nossa libertação. O projeto libertador de Deus em Jesus não se realiza através de esquemas de poder e de triunfo, mas através da entrega da vida e do amor que se dá até à morte. É esse o caminho que nos conduz, a nós também, à transfiguração em Homens Novos.

Há muitas trevas neste mundo: por isso o mistério luminoso da Transfiguração de Jesus realizou-se “enquanto rezava”(cf. Lc 9,29), juntamente com os Apóstolos Pedro, Tiago e João, que subiram com ele à montanha sagrada “para rezar”(cf. Lc 9,28).

Pedro, Tiago e João fizeram a experiência de ser incluídos na oração de Jesus, ou seja, na sua intimidade com o Pai, na qual se revela a sua profunda identidade de Filho, resplendor da glória do Pai(cf. Hb 1,3).
Contemplemos a oração de Jesus no Evangelho: durante esta oração, “seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante”(cf. Lc 9,29), manifestando a sua condição divina.

São Lucas evidencia que Moisés e Elias, representantes da Lei e dos Profetas, ou seja, de toda a Escritura da Antiga Aliança, conversam com Jesus(cf. Lc 9,30). Tanto Moisés quanto Elias desejavam ver a glória de Deus, a sua Face(cf. Ex 33,20; 1Rs 19,13), mas não a puderam contemplar. Agora, em Cristo, Deus feito homem, podem contemplar a Face de Deus no Verbo Encarnado. Conversam com Jesus acerca de sua morte que se dará em Jerusalém(cf. Lc 9,31): as Escrituras, a Lei e os Profetas, falam do mistério Pascal de Cristo. Neste episódio, fica claro para nós que a oração da Jesus não tem nada de evasiva, pois no seu diálogo íntimo com o Pai, ele não sai da história, não evita a missão para a qual veio ao mundo, mesmo sabendo que para chegar à glória deverá passar pela Cruz.

A Transfiguração demonstra que com a oração de Jesus, o Salvador entra profundamente na sua missão, aderindo completamente à vontade do Pai, e mostra-nos que a verdadeira oração consiste precisamente em unir a nossa vontade à de Deus.

Nesse domingo cabe a pergunta: porque rezamos? Rezar não significa “sair da realidade” e das responsabilidades que temos, mas assumi-las totalmente, confiando no amor fiel e inesgotável do Senhor.

Se São Pedro deseja continuar aquela experiência da transfiguração(cf. Lc 9,33), uma nuvem os cobre com a sua sombra. Os olhos já não podem ver, mas é possível ouvir a voz que sai da nuvem: “Este é o meu Filho, escutai o que ele diz”(cf. Lc 9,35). Ele é a única voz que deve ser ouvida, o único que deve ser seguido. Ele, que subindo a Jerusalém entregará a vida e um dia “transfigurará o nosso corpo miserável para o conformar com o seu corpo glorioso”(cf. Fl 3,21).

Quando Jesus está em oração, não está só, Deus seu Pai está com Ele. O monte é o lugar da revelação de Deus e a nuvem é símbolo da sua presença. É, pois, no momento em que Jesus rezava que Deus Se manifesta, não somente a seu Filho, mas também aos seus discípulos, e a presença de Moisés e de Elias recorda a antiga aliança àqueles que vão beneficiar da nova aliança. Ao mesmo tempo que, no monte Sinai, Deus tinha revelado o seu Nome a Moisés para fazer sair do Egito o seu povo escolhido, também na montanha da Transfiguração Deus dá a identidade de Jesus: “Este é o meu Filho, o meu Eleito”(cf. Lc 9,35). E aos três apóstolos, embaixadores de todos aqueles que reconhecerão em Jesus o Filho bem-amado, Deus pede para O escutar. É antes de ver a nuvem e de ouvir a voz do Pai que Pedro propõe para erguer três tendas para Jesus, Moisés e Elias, porque pensa que são apenas três. Será necessário que Deus Se manifeste para que Pedro, um pouco como Jacó, diga talvez: “Deus estava no monte e eu não sabia!” Será preciso chegar à manhã de Páscoa, e o dom do Espírito no Pentecostes, para que ele proclame a sua fé n’Aquele que Deus fez “Senhor e Messias, este Jesus que crucificaram”.

Devemos seguir o caminho dos apóstolos: o apóstolo transfigurado deve enfrentar o compromisso com o povo, e a sua realidade nem sempre é tão brilhante como nas alturas. Na montanha, em contato com Deus, rezamos, escutando a voz do Filho e pedindo nossa transformação, para que, na planície, nos solidarizemos com os rostos desfigurados dos sofredores.

Neste segundo domingo da Quaresma, mergulhados neste tempo favorável da Quaresma, subamos, com Cristo, o Monte Tabor. A Palavra da Salvação nos convida a abrir os nossos olhos, os ouvidos, a mente e o coração para reconhecer a presença de Senhor Jesus, o Filho de Deus, dando testemunho da justiça e da fraternidade.

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