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Terra, vida e morte - A exploração da terra e suas consequências "Se a terra nos é dada, não podemos pensar apenas a partir dum critério utilitarista de eficiência e produtividade para lucro individual. Não estamos a falar duma atitude opcional, mas duma questão essencial de justiça, pois a terra que recebemos pertence

Dom João Justino de Medeiros Silva

Arcebispo Metropolitano de Montes Claros - MG

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04/02/2019 - Atualizado em 04/02/2019 14h04

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Recentemente, numa das pequenas comunidades do interior da Arquidiocese, recebi, ao final da celebração eucarística, os frutos da terra que foram apresentados junto do pão e do vinho. Eram dados a mim como presentes. Foi comovente recordar como me foram entregues na procissão das oferendas. Tudo era produto da terra e do trabalho daquelas pessoas que celebravam com fé e gratidão as crismas e a eucaristia. Ao chegar em casa, dei-me conta da generosidade da terra e dos trabalhadores. Eram dezessete tipos diferentes de produtos: manga ubá, pitomba, carambola, laranja, banana, limão, pequi, pinha, mamão, chuchu, feijão de corda, milho verde, abacate, mandioca, caxi, moranga e umbu.

Uma senhora, ao me ouvir relatar isso, disse: “Imagine o quanto mais nossa terra produziria se tivéssemos mais chuvas”. Sim, o norte de Minas é uma região de clima semiárido e as chuvas são escassas. Nos últimos decênios, diversas nascentes secaram, há rios antes perenes que se tornaram intermitentes. Muitos defendem que a monocultura do eucalipto, agora abundante no sertão norte-mineiro, absorve enormes quantidades de água, podendo até mesmo ressecar rios e outras fontes hídricas existentes no entorno dessas grandes plantações. O desmatamento, outra causa da redução das águas, é uma realidade. Via de consequência a água potável é escassa em nossa região.

Tudo isso me fez pensar na relação terra e trabalho. De um lado a terra, expressão generosa da natureza. Seus frutos são abundantes e variados, com sabores diferentes e deliciosos. O cerrado comprova a prodigalidade da terra, que embora seca e até árida, produz enorme diversidade de frutos. De outro lado, o trabalho. E aqui estamos falando do ser humano que trabalha a terra, intervém na natureza, aprende a explorá-la e a fazê-la produzir. É louvável quando conscientemente cultivada.

No entanto, o que se tem observado é um trabalho humano que escraviza a terra, suga o quanto pode de seus recursos para atender suas necessidades, destruindo a natureza em busca de riquezas. O ser humano fez da terra um valor cobiçado. Ele delimita territórios, grila terras, expulsa comunidades tradicionais, estabelece monoculturas, não dá descanso à terra... Isso mesmo, a terra precisa descansar para se refazer e oferecer novos ciclos de vida. Bem sabia o homem bíblico, que instituiu o ano jubilar para descansar a terra e quebrar as correntes da escravidão.
A terra não produz apenas os vegetais para alimento humano e animal. Ela é rica em minerais e nela se encontram riquezas muito cobiçadas pelo homem, desde o ouro, a prata, o diamante, o minério de ferro, o zinco, o nióbio, entre outros. A indústria mineradora é uma das mais potentes da economia. Ela revolve a terra, aplaina montanhas, escava quilômetros de túneis, beneficia, transporta. É trabalho humano, que gera riquezas, porém quando realizado sem critério destrói sobremaneira o meio ambiente, colocando em risco a vida.

Exemplo disso é o que todos assistimos acontecer em Brumadinho: o horror de uma exploração da terra sem escrúpulos. O resultado é o pior: morte de pessoas, de animais, de plantações, de paisagens, de nascentes, de rios... Fruto da ganância humana.

Nessa esteira, não se pode desconhecer que a terra há de ser cultivada, mas, sobretudo, cuidada. Ela é puro dom. Dela extraímos muitíssimo do que precisamos para viver. Diz o Papa Francisco: ‘Se a terra nos é dada, não podemos pensar apenas a partir dum critério utilitarista de eficiência e produtividade para lucro individual. Não estamos a falar duma atitude opcional, mas duma questão essencial de justiça, pois a terra que recebemos pertence também àqueles que hão de vir” (Laudato sì, 159).

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