Artigos dos Bispos

A Palavra de Deus nos ilumina "A Palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante que qualquer espada de dois gumes... Julga os pensamentos e as intenções do coração” (cf. Hb 4,12)

Dom Eurico dos Santos Veloso

Arcebispo Emérito de Juiz de Fora - MG

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22/01/2019 - Atualizado em 22/01/2019 13h18

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A liturgia deste domingo coloca no centro da nossa reflexão a Palavra de Deus: ela é, verdadeiramente, o centro à volta do qual se constrói a experiência cristã. Essa Palavra não é uma doutrina abstrata, para deleite dos intelectuais; mas é, primordialmente, um anúncio libertador que Deus dirige a todos os homens e que incarna em Jesus e nos cristãos.

A Palavra de Deus neste domingo fala sobre ela mesma. Ela nos diz que não dá para permanecer “neutro” diante dela, porque “a Palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante que qualquer espada de dois gumes... Julga os pensamentos e as intenções do coração”(cf. Hb 4,12).

Na primeira leitura(cf. Ne 8,2-4a.5-6,8-10), exemplifica-se como a Palavra deve estar no centro da vida comunitária e como ela, uma vez proclamada, é geradora de alegria e de festa. É por isso que “todo o povo chorava ao ouvir as palavras da Lei”(cf. Ne 8,9), assim como ouvimos hoje, e “todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele”(cf. Lc 4,20), em Jesus, como ouvimos no Evangelho, que ainda, proclamou: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”(cf. Lc 11,21).

A Palavra de Deus tem esse efeito, porque há sempre alguém divino que se dá a conhecer por meio dela. Não se trata de uma comunicação de informações, nem mesmo de saber, mas de uma relação com um alguém, porque Cristo “Está presente na sua palavra, pois é ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura(SC , n. 7). Por isso, a Assembleia da sinagoga ficou meio atônita diante da palavra proclamada por Jesus, porque estavam vendo diante dos olhos aquele que era a própria realização da realidade que a Palavra anunciava. Assim, a atitude de quem escuta a Palavra de Deus requer é a de discípulo em relação com o seu Mestre Divino, uma relação que compromete toda a nossa existência. Estar disposto a escutar a Palavra de Deus significa comprometer-se a caminhar com Jesus, a manter com ele uma relação de amizade, fidelidade e generosidade. Dentro do contexto desta relação, a Palavra de Deus torna-se alimento, luz e vida. Fora desse contexto, ela chama a entrar nessa relação, um chamado ao qual podemos atender ou nos fazer de surdos. Cada um de nós que ouvimos a Palavra de Deus nesta Celebração pode se perguntar: qual foi a minha reação(resposta) diante desta Palavra?

No Evangelho(cf. Lc 1,1-4;4,14-21), apresenta-se Cristo como a Palavra que se faz pessoa no meio dos homens, a fim de levar a libertação e a esperança às vítimas da opressão, do sofrimento e da miséria. Sugere-se, também, que a comunidade de Jesus é a comunidade que anuncia ao mundo essa Palavra libertadora. Jesus tão especial como pregador é que Ele foi o primeiro profeta a trazer a imagem do Deus Pai, e não daquele Deus vingativo, que pune o pecador e a sua descendência com doenças e desventuras. Evangelho já começa dizendo que “Jesus voltou para a Galiléia”. O que significa dizer que Ele estava em outro lugar. Particularmente, eu não duvido que Jesus tenha viajado bastante, e conhecido vários lugares, culturas e pessoas diferentes. Acredito que em sua vida terrena, nos anos não-narrados pelos evangelistas, Ele tenha aprendido muito mais do que ensinou. Afinal, para falar tão bem como Ele falava, era necessário conhecer tudo sobre o Reino dos Céus, sobre o Deus Pai, e sobre o ser humano em si, seus sentimentos, suas limitações, suas imperfeições…

No tempo de Jesus, há umas centenas de anos que os judeus liam o livro do profeta Isaías, do qual Jesus cita uma passagem: “O Espírito do Senhor está sobre mim… Enviou-me a levar a Boa Nova aos pobres…” Mas em cada ano era sempre a mesma coisa: nada mudava! E eis que Jesus anuncia repentinamente que essa palavra se cumpre hoje, n’Ele. Como poderia ser? Não era Ele o filho do carpinteiro? Com Jesus, a Boa Nova anunciada por João Batista já não é simplesmente uma promessa. É uma força e uma luz que mudam a vida agora. Mas, para nós que lemos esta Palavra há tanto tempo, parece que é sempre a mesma coisa: nada muda! A religião não se tornou o “ópio do povo” para adormecer os pobres? Seria o caso se Jesus não tivesse ressuscitado, sempre vivo, literalmente nosso contemporâneo. Fala-nos sempre no presente para nos dizer que, hoje, o Espírito do Senhor nos é dado para que a nossa maneira de agir mude concretamente, para que ela tome uma cor mais evangélica. É por nós que Jesus age para cumprir a promessa divina. Dá-nos o seu Espírito para que o nosso coração se liberte dos seus egoísmos, para que os outros não se sintam mal no nosso coração, para que levemos aos pobres o apoio da nossa ajuda e da nossa partilha, aos cegos a luz da nossa amizade, para que hoje seja um dia de felicidade para aqueles e aquelas que encontrarmos. É a nossa missão de cristãos: que a Boa Nova tome corpo na nossa vida, para que a Palavra de Deus seja viva hoje!

A segunda leitura(cf. 1Cor 12,12-30) apresenta a comunidade gerada e alimentada pela Palavra libertadora de Deus: é uma família de irmãos, onde os dons de Deus são repartidos e postos ao serviço do bem comum, numa verdadeira comunhão e solidariedade.

Que a Palavra de Deus continue iluminando a nossa vida e conformando nosso agir como “luz para nossos passos e lâmpada para nossos pés”, Amém!

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