Artigos dos Bispos

Competência relacional “Conhece-te a ti mesmo”

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte - MG

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21/12/2018 - Atualizado em 21/12/2018 09h42

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“Conhece-te a ti mesmo”. Este princípio filosófico-socrático é importante indicativo para orientar a competência relacional, num momento em que as novas formas de comunicação e partilha das informações trazem incontáveis possibilidades e desafios. A contemporaneidade exige sobretudo o respeito ao outro, a partir do mais nobre sentido de alteridade. Isso porque a conduta humana está exposta ao risco de ser reduzida a um comportamento robótico, induzido pela supervalorização da técnica.

A tecnologia proporciona a invenção de equipamentos desenvolvidos para produzir muito, incansavelmente, sem necessidade de repouso, lazer, espiritualidade e, principalmente, de dedicação aos relacionamentos. Por isso mesmo, esses equipamentos, incluindo os robôs, não podem ser comparados a seres humanos, que se singularizam especialmente pela incomparável competência relacional.  

É essa competência que envolve e articula o sentido da vida, a razão do trabalho, o amor pelos outros, a reverência e o compromisso com a promoção da dignidade do ser humano. A espiritualidade e a vivência da fé são essenciais para desenvolver a habilidade relacional, pois contribuem para o cultivo do altruísmo, base da solidariedade, remédio que cura os descompassos sociais e políticos. O avanço tecnológico pode ser bom, pois permite, a partir das operações robóticas e da informatização, mais produtividade e qualificação profissional. Mas essas inovações somente serão benéficas se proporcionarem a cada pessoa mais tempo para se dedicar a competência relacional, tão importante à condição humana.

Um olhar dirigido à realidade permite constatar que o mais importante não são os recursos técnicos, mas as habilidades comportamentais. É impressionante como o mundo torna-se cada vez mais tecnológico, um processo inevitável, com mudanças profundas imprevisíveis. Basta pensar como era o mundo do trabalho há algumas décadas para perceber as muitas transformações. Essas mudanças não significaram somente conquistas, mas também o surgimento de graves problemas. As redes sociais digitais, por exemplo, não apenas possibilitaram a aproximação de pessoas, mas deram origem a novas manifestações do ódio, da perseguição e da intolerância. Assim, são necessários investimentos na competência relacional, para que o progresso técnico esteja comprometido com bem comum.

Os diferentes segmentos da sociedade devem se convencer, urgentemente, da importância de se investir nas habilidades comportamentais. Os êxitos dependem dessas habilidades. Não basta simplesmente o conhecimento técnico. É preciso muito mais: a competência relacional, característica constitutiva de cada pessoa, ligada à capacidade inesgotável de amar e se aproximar do amor de Deus, que se faz ainda mais próximo de todos a partir da encarnação do Verbo Eterno, Jesus Cristo. Sem o necessário investimento na habilidade para se relacionar, o ser humano adoece, torna-se mais frágil. Agravam-se as desconexões, arruínam-se os funcionamentos institucionais e de grupos.

Campo permanente de aprendizagem, o desenvolvimento da competência relacional recebe especial atenção da Igreja Católica: o Concílio Vaticano II, realizado de 1962 a 1965, publicou dois documentos - sobre a Igreja no mundo e a missão dos bispos e dos padres – que ressaltam a importância dessa competência. As ações administrativas e gerenciais, os investimentos inteligentes na organização sistêmica das atividades pastorais e missionárias, não podem substituir a primazia dos relacionamentos interpessoais, sob pena de adoecimentos graves, do distanciamento da alegria e da audaciosa coragem inspiradas pela fé.

Não raramente, por falta de habilidade na forma de falar ou elaborar juízos, processos são comprometidos, pessoas adoecem, horizontes ficam obscuros. A habilidade para se relacionar é importante principalmente no exercício da liderança. As tecnologias avançam, fruto da razão, mas não podem substituir as necessárias habilidades emocionais do ser humano. Todos são convidados a dedicar-se à própria interioridade, um investimento na competência relacional.  

 

 

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