Artigos dos Bispos

A morte é um mistério de amor! A morte nos ensina a comunhão(Sl 49,11ss), porque todos nós somos irmãos diante da morte e todos vão morrer.

Dom Eurico dos Santos Veloso

Arcebispo Emérito de Juiz de Fora - MG

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31/10/2018 - Atualizado em 31/10/2018 10h52

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O silêncio é a melhor atitude perante a morte. Introduzindo-nos no diálogo da eternidade e revelando-nos a linguagem do amor, põe-nos em comunhão profunda com esse mistério imperscrutável. Há um laço muito forte entre os que deixaram de viver no espaço e no tempo e aqueles que ainda vivem neles. É verdade que o desaparecimento físico dos nossos entes queridos nos causa grande sofrimento, devido à intransponível distância que se estabelece entre eles e nós. Mas, pela fé e pela oração, podemos experimentar uma íntima comunhão com eles. Quando parece que nos deixam, é o momento em que se instalam mais solidamente na nossa vida, permanecem presentes, fazem parte da nossa interioridade. Encontramo-los na pátria que já levamos no coração, lá onde habita a Santíssima Trindade.

A Mãe Igreja sempre reverenciou a memória dos fiéis defuntos, oferecendo-lhes sufrágios. Na morte de seus filhos, a Igreja celebra o Mistério Pascal do Filho de Deus, centro de nossa fé. O dia de finados é, por excelência, um dia em que somos convidados à esperança, enquanto aguardamos que o Senhor “até que ele venha”(cf. 1Cor 11,26) – a consumação do mistério redentor em nossas vidas, através de nossa associação ao mistério da vida e da morte de Cristo.

Para o católico a morte não é o fim, ao contrário é o início da vida em Deus. O centro de nossa fé católica é o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. E este mistério pascal não é uma realidade “exclusiva” de Jesus, que apenas ele viveu. Não. Deus quis que cada um de seus filhos adotivos fosse inserido neste mistério de salvação e de amor. E é bem no centro deste mistério, entre a Paixão de nossos sofrimentos cotidianos e a Ressurreição que ainda não vemos, mas esperamos, que se encontra a morte. Realmente, a presença da morte, em meio à nossa vida, é um mistério.

A morte nos dá uma lição de humildade. O próprio Filho de Deus, que é Deus, não se isentou da morte. Isto é, o próprio Deus se submeteu à experiência da morte como suma consequência do pecado, a fim de toma-la sobre si e destruí-la com seu amor imortal.

A morte nos ensina a comunhão(Sl 49,11ss), porque todos nós somos irmãos diante da morte e todos vão morrer.

A morte nos ensina o amor. Amor próximo e amor separação. O amor verdadeiro sabe deixar partir. Partimos do ventre materno ao nascer, partimos da casa dos pais ao casarmos ou ao ingressarmos na vida consagrada ou na vida presbiteral, e partimos do mundo presente para a vida em Deus, a vida eterna. Por isso a morte é um mistério.

Se, na humildade do dia a dia, vivemos a nossa oblação-imolação com Cristo, oblato e imolado pela salvação do mundo, estamos preparados para o último apostolado da nossa vida: a oblação-imolação da nossa morte, o extremo sacrifício, consumado pelo fogo do Espírito, como aconteceu na morte de Cristo na cruz: “Por um Espírito eterno ofereceu a Si mesmo sem mancha, a Deus” (Heb 9, 14). A morte é, então, a nossa última oferta, o momento da suprema, pura oblação: “Se morrermos com Ele, com Ele viveremos” (2 Tm 2, 11).

Eu, já na terceira idade, sempre procuro “buscar o rosto sereno e radioso de Cristo”. Santo Agostinho disse algo que é um grande pensamento e um grande consolo. Ele interpreta a passagem dos Salmos “busca seu rosto sempre” dizendo: isto se aplica “para sempre”, a toda a eternidade. Deus é tão grande que nunca terminamos nossa busca. Ele é sempre novo. Com Deus há encontro perpétuo, interminável, com novas descobertas e nova alegria. Tais coisas são questões teológicas, mas buscar o rosto de Deus é a nossa meta nesta vida, vivendo o Evangelho, praticando a caridade, e nos preparando para aquele abraço eterno. Deus nos ama. Não nos criou para a vida transitória. Nos criou para a vida divina.

No dia de finados nos unimos a todos os que nos precederam no céu: nossos pais, parentes, amigos, benfeitores. Se a sua catequista, a sua professora, o padre que o batizou, que lhe deu a primeira comunhão, que o confessou e que mesmo o casou, ou mesmo o chamou à vida consagrada e religiosa, ou alguém que o ajudou a crescer na fé e foi testemunha vida do Senhor já tenha partido entre em comunhão com ele, reze por ele. Visitar os cemitérios, no dia de finados, nos confronta que a nossa vocação é sermos cidadãos do céu. Para a Jerusalém celeste caminhamos pressurosos.

Que as almas dos fiéis defuntos, pela misericórdia de Deus, descansem em paz, Amém!

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