Artigos dos Bispos

Quem é Jesus para você? No Evangelho (cf. Mc 8,27-35), Jesus é apresentado como o Messias libertador, enviado ao mundo pelo Pai para oferecer aos homens o caminho da salvação e da vida plena.

Dom Eurico dos Santos Veloso

Arcebispo Emérito de Juiz de Fora - MG

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12/09/2018 - Atualizado em 12/09/2018 10h17

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A liturgia do 24º Domingo do Tempo Comum diz-nos que o caminho da realização plena do homem passa pela obediência aos projetos de Deus e pelo dom total da vida aos irmãos. Ao contrário do que o mundo pensa, esse caminho não conduz ao fracasso, mas à vida verdadeira, à realização plena do homem.

A primeira leitura (cf. Is 50,5-9a) apresenta-nos um profeta anônimo, chamado por Deus a testemunhar a Palavra da salvação e que, para cumprir essa missão, enfrenta a perseguição, a tortura, a morte. Contudo, o profeta está consciente de que a sua vida não foi um fracasso: quem confia no Senhor e procura viver na fidelidade ao seu projeto, triunfará sobre a perseguição e a morte. Os primeiros cristãos viram neste “servo de Deus” a figura de Jesus.

No Evangelho (cf. Mc 8,27-35), Jesus é apresentado como o Messias libertador, enviado ao mundo pelo Pai para oferecer aos homens o caminho da salvação e da vida plena. Cumprindo o plano do Pai, Jesus mostra aos discípulos que o caminho da vida verdadeira não passa pelos triunfos e êxitos humanos, mas pelo amor e pelo dom da vida (até à morte, se for necessário). Jesus vai percorrer esse caminho; e quem quiser ser seu discípulo, tem de aceitar percorrer um caminho semelhante. Jesus procura ensinar seus discípulos sobre o verdadeiro sentido do Messias prometido, o Salvador humilde e sofredor, não o do salvador político, mas aquele que liberta as pessoas de toda a escravidão causada pelo desamor. Essa visão nova provoca a indignação de Pedro, levando Jesus a adverti-lo duramente: “Vai para trás de mim, Satanás, pois você não tem em mente as coisas de Deus”(cf. Mc 8,33). Jesus chama Pedro de Satanás, que significa: tentador, sedutor, porque Pedro tentou desviá-lo do caminho do sofrimento; por isso Jesus disse: “Segue atrás de mim, ocupa seu lugar atrás de mim e segue-me carregando a cruz”. Jesus quis mostrar a seus discípulos que não existe vida sem sofrimento, não existe fé sem cruz. A reação de Pedro é a comum reação nossa diante de um sofrimento, de uma humilhação, de uma crítica, uma correção fraterna, de um mal-entendido ou de uma discussão. Nossa reação imediata é a rejeição, não admitimos ser o perdedor. Como podemos sair vencedor, se perdemos? Como podemos continuar vivendo, se morremos? Pedro não aceitou este paradoxo, nem também nós aceitamos, mas é justamente o que precisamos aprender e aceitar. Para aceitar o pensamento de Jesus é preciso conhece-lo, seguir os seus passos, viver o seu Evangelho, ser verdadeiramente seu discípulo, seguindo-o carregando sua própria cruz de cada dia; se não aceitarmos carregar nossa cruz, nunca vamos entender o que significa o sofrimento redentor, o que significa perder para ganhar, perder a vida para viver, morrer para ressuscitar.

Ficamos sempre admirados ao ver Jesus proibir que falem d’Ele. A razão é simples: tem medo que os seus discípulos ou a multidão desfigurem o seu rosto de Messias. Os homens olham com os olhos da carne, e que desejam eles? Um Messias nacionalista, poderoso, libertando o seu povo da ocupação romana. Quanto a Jesus, pede que O olhem com os olhos da fé: o Messias prometido é um Messias sofredor, porque Deus quer dar aos homens o sinal do seu Amor, um Amor que vai até ao fim, até ao dom total. Pedro terá, então, necessidade de purificar a sua fé, e é após a ressurreição que os seus olhos se abrirão, reconhecendo o Messias n’Aquele que lhe mostrará as suas chagas. E Ele mesmo fará a experiência da passagem pela morte para conhecer a Vida, ele caminhará atrás do seu Mestre, ele renunciará a si próprio, ele tomará a sua cruz e seguirá Jesus até ao fim.

Aprendamos a carregar a nossa cruz de cada diz, caminhando com coragem e paz interior, pois somente assim nosso sofrimento adquire a dimensão de co-redenção de Jesus. Tomar nossa cruz de cada dia procurando renunciar muita coisa para o bem do outro, é verdadeiramente uma abnegação de si mesmo nas mesmas coisas práticas de cada dia.

A segunda leitura (cf. Tg 2,14-18) lembra aos crentes que o seguimento de Jesus não se concretiza com belas palavras ou com teorias muito bem elaboradas, mas com gestos concretos de amor, de partilha, de serviço, de solidariedade para com os irmãos. Fé e amor não é adesão intelectual, mas a prática da abnegação, do esvaziamento, minuto a minuto. Nossa vida de fé e oração, se não é vivida em atos concretos de respeito, apreço, amor fraterno, por si só está morta.

Através de Pedro, vemos como Deus age. Jesus escolheu Pedro para que fosse o primeiro servidor da unidade dos discípulos. Ele teve nele uma confiança ainda maior após a sua negação. Jesus não muda! Ele continua a escolher e a enviar discípulos para que sejam, ao serviço da unidade da comunidade, pastores que prolongam a ação do único Pastor. Mas estes homens guardam o seu lado-luz e o seu lado-sombra. O Apóstolo São Paulo dirá que Deus confia o seu tesouro a vasos de argila, “para que a vossa fé repouse, não na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus”. Apesar dos limites e dos defeitos dos pastores, o Espírito Santo continua a fazer crescer o Reino! Que Ele fortaleça a nossa fé e a nossa esperança!

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