Artigos dos Bispos

Distribuir e sobrar A formação do adequado senso crítico ajuda a pessoa a discernir o joio do trigo e, a quem tem bom caráter e espírito altruísta e de hipoteca social, a cooperar com a implantação do bem comum.

Dom José Alberto Moura

Arcebispo Metropolitano de Montes Claros

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25/07/2018 - Atualizado em 25/07/2018 14h55

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Vivemos numa sociedade em que o dinheiro e o acúmulo de riquezas materiais são concentrados demais nas mãos de poucos. Esses parecem insaciáveis e com medo de não terem ainda o suficiente para viver, esquecendo-se de que não viverão eternamente nesta terra. Não percebem que na colaboração com a promoção dos mais necessitados estaria sua grandeza de humanismo que lhes dê mais segurança de vida digna. Aliás, nosso sistema tributário também favorece o descompromisso dos que têm demais com o bem da sociedade. Quem ganha ou tem pouco acaba pagando mais impostos, proporcionalmente, do que os de grandes ganhos e fortunas. É possível mudar isso se o povo se conscientizar e escolher políticos de compromisso com o bem social.

Na época do profeta Eliseu um homem foi dar-lhe vinte pães. Ele mandou que o doador os distribuísse para o povo. Mas esse falou que os pães não seriam suficientes para todos. O profeta insistiu pela distribuição, dizendo que os alimentos dariam e sobrariam, como, de fato, ocorreu (Cf. 2 Reis 4,42-44). Isso aconteceu à semelhança do que Jesus faria depois com a multiplicação de pães e peixes em diferentes ocasiões.

Hoje temos cerca de um quarto da humanidade morrendo de fome em diversos países. Por outro lado, há o desperdício de um terço dos alimentos produzidos no planeta. A racionalização da distribuição dos alimentos e dos bens materiais acontecer  de melhor forma, com governos que fizessem o planejamento do ganho, do trabalho e das exigências de solidariedade e compromisso de inclusão social. Políticas públicas deveriam ser elaboradas com programas de governo dos que se apresentam para exercer cargos eletivos na coisa pública, com a fiscalização do resultado dos mesmos. Na apresentação dos candidatos precisamos mais de programas de ação do que de promessas vazias e eleitoreiras. As ideologias de partidos (se é que todos as tenham!) não podem sufocar a disposição de se trabalhar pelo bem comum e não simplesmente para o bem dos mesmos partidos.

Até na variedade de mentalidades e história de vida das pessoas, os órgãos de formação, como famílias, escolas, Igrejas, instituições de serviço público e privado poderiam ajudar, talvez ainda mais, na conscientização de todos para a cultura da alteridade. Aí se daria mais a formação do caráter para a solidariedade, a justiça e a inclusão social, bem como a formação para a adequada política, em que todos colaborem com a prática da cidadania e o bem comum. Caso contrário, o egoísmo, com influência dos que vivem ao contrário da colaboração com a comunidade é que vai reinar, produzindo sempre mais o individualismo roedor do tecido social.

A formação do adequado senso crítico ajuda a pessoa a discernir o joio do trigo e, a quem tem bom caráter e espírito altruísta e de hipoteca social, a cooperar com a implantação do bem comum. Se não é possível nem conveniente arrancar todo o joio, para não se estragar também o trigo, na parábola contada por Jesus (Cf. Mateus 113,24-30), é preciso que  os bons sejam persistentes no seu ideal e sua prática de promover o benefício dos que são injustiçados e empobrecidos.

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