Artigos dos Bispos

Arte na religião: um valor inalienável “A Igreja aprova e admite no culto divino todas as formas de verdadeira arte, contanto que estejam dotadas das devidas qualidades” (SC 112).

Dom Gil Antônio Moreira

Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora - MG

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23/07/2018 - Atualizado em 23/07/2018 09h08

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No caminhar da história é necessário estar sempre atento aos valores. Na ânsia natural de progresso, corre-se o risco de mudar por mudar, esquecendo-se que há certas coisas que devem ser legitimamente conservadas. Há o risco da superficialidade na análise e acabar por ter preconceito contra a palavra conservação.

Ser conservador pode ser um crasso erro ou um genial acerto. Há certas coisas das quais não se pode abrir mão, porque representam riqueza inalienável. Há de se ver que em questões artísticas entendemos bem isto, pois mesmo havendo expressões novas, nunca se destrói uma obra de arte antiga. Quem seria louco de, em valorizando as edificações de Niemeyer, pôr ao chão as obras de Aleijadinho ou de Leonardo da Vinci ou de Michelangelo? Quem, apreciando Portinari ou Picasso, despreza Rafael, Giotto, Ataíde ou Pedro Américo? Em arte não há competição. Os poemas de Adélia Prado ou de Cecília Meireles ou de Manoel Bandeira não se rivalizam com os sonetos de Raimundo Correia, nem com as poesias de Castro Alves. As composições musicais de Bela Bartók, de Vila Lobos, de Antonin Dvórak não são a destruição dos concertos de Brandenburgo ou das seis suítes para Violoncelo de Johann Sebastian Bach, nem das Quatro Estações de Antonio Vivalvi, nem das sinfonias imortais de Ludwig van Beethoven.

Nas festas comemorativas de Nossa Senhora do Carmo, a convite, estive outra vez em São João del-Rei, onde celebrei a Missa solene, dia 16 de julho. A parte musical foi enriquecida pela Orquestra Ribeiro Bastos, que levou as lindas composições de Padre José Maria Nunes Garcia, celebrando exatos 200 anos de sua primeira execução acontecida a 16 de julho de 1818, na Corte de Dom João VI, no Rio de Janeiro. O novenário e as festas de Nossa Senhora do Carmo são celebrados em São João del-Rei desde o século XVIII, tendo a Ordem Terceira do Carmo sido fundado ali em 1.746.

Tais celebrações tradicionais, feitas em grande parte na língua latina, tendo o povo o Ritual bilíngue nas mãos, onde pode ler a tradução dos textos em português, são enlevantes e possibilitam autêntico encontro pessoal com Jesus, alimentando a piedade e o genuíno amor a Deus e ao próximo. Com orações, antífonas, ladainhas e aclamações, celebra-se jubilosamente a única mediação de Cristo, na qual encontra-se presente a intercessão de Maria, como em Caná da Galiléia (cf. João 2, 1-12), dos Santos, como Pedro e João à porta do Templo de Jerusalém (cf. Atos 3, 1-9) e dos Anjos, como, por exemplo, a fiel presença do Arcanjo Rafael ao lado de Tobias (Cf. Tobias 3,25). Os sermões são momentos importantes, propícios para aprofundamento do conhecimento bíblico e sua adaptação à vida, sendo dividido o novenário em três tríduos confiados cada um a um pregador.

São João del-Rei distingue-se como capital brasileira da música sacra, das artes sacras em geral, da catolicidade presente em sua gente que, de geração em geração, procura conservar tradições que não podem se perder e preservar valores que não podem ser diminuídos, pois seria o mesmo que perder inesgotável fonte de fé, de espiritualidade e de vivência cristã.

O Concílio Vaticano II (1962-1965), obra extraordinária do Espírito Santo, verdadeiro novo pentecostes na Igreja, renovou legítima e necessariamente muitas coisas, porém teve o cuidado de não desconhecer os valores já presentes nas comunidades marcadas pela história. Sobre a música sacra, ensina a Constituição Sacrosactum Concilium: “Havendo em algumas regiões [...] povos que têm uma tradição musical própria, a qual desempenha importante função em sua vida religiosa e social, a esta música se deem a devida estimação e o lugar conveniente, tanto para lhes formar o senso religioso, quanto para adaptar o culto à sua mentalidade [...]” (SC 119).

Diz ainda o mesmo Documento Conciliar: “A Igreja aprova e admite no culto divino todas as formas de verdadeira arte, contanto que estejam dotadas das devidas qualidades” (SC 112).

Quanto à conservação de tais valores religiosos, a Igreja não exige que se extingam para simplesmente dar lugar a outras formas, podendo, como acontece na inteligência das artes em geral, conviverem pacificamente de forma complementar, pois seria lastimável perder o que serve, de maneira tão bela e forte, para a prática da vivência do povo de Deus no que diz respeito aos mistérios de Jesus Cristo.

 

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