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Vida Monástica, Eloquência do Silêncio e Alicerce da Igreja À entrega total e indivisível a Deus, pelos votos da Obediência, Pobreza e Castidade, diariamente renovados no silêncio da alma, corresponde também um natural desafio para enfrentar as forças negativas do egoísmo, do egocentrismo, da vaidade, do orgulho,

Dom Gil Antônio Moreira

Arcebispo Metropolitano de Juiz de Fora - MG

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19/06/2018 - Atualizado em 19/06/2018 13h37

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A vida contemplativa é um dos maiores dons que Deus tem dado à Igreja. Nela o silêncio fala. Através dele se pode escutar a Deus, ouvir seus segredos de amor incondicional. No mundo tão barulhento da atualidade, encontra-se nos mosteiros o oásis da paz, frente às frustrações mundanas, o ensurdecedor barulho das coisas frívolas e a aridez das coisas materiais.

À entrega total e indivisível a Deus, pelos votos da Obediência, Pobreza e Castidade, diariamente renovados no silêncio da alma, corresponde também um natural desafio para enfrentar as forças negativas do egoísmo, do egocentrismo, da vaidade, do orgulho, dos desânimos e de tantas outras situações desafiadoras.

O lema Ora et Labora (Reze e Trabalhe) de São Bento de Núrcia (480-547), considerado Pai dos Monges do Ocidente, imprime no coração dos seus filhos e filhas que vão se multiplicando na história desde aquele século 5º, o sentimento de que tudo o que fazem é para Deus e só para Deus. O pensamento prossegue ao se ler na Regra Monástica a expressão “Christo nihil praeponere” (Nada se anteponha a Cristo), utilizada antes por São Cipriano (250-304) e Santo Agostinho (354-430), mas revalorizada por São Bento, impulsionando os homens e as mulheres dos claustros a não descuidarem deste princípio diante de tudo o que devem realizar. Contemplar o rosto de Cristo antes de qualquer decisão é sinônimo de segurança e antecipação da vitória, pois quem segue a Cristo nunca erra o caminho, nunca foge à verdade e experimenta a vida que nem a morte destrói.

Nos umbrais da entrada da Arquiabadia do Monte Cassino, na Itália, onde se encontram os restos mortais de São Bento e de sua irmã gêmea, também monja, Santa Escolástica, se lê a máxima “Succisa Virecit (cortada reverdece). O dístico latino traduz a certeza do monge e da monja de se disporem ao serviço de Deus sem medo e sem preocupações, pois quando se sente a dor dos cortes, nos caminhos do amor divino, tem-se certeza absoluta de que algo melhor virá, uma vez que a planta, quando podada, toma novo vigor para dar frutos mais belos, mais abundantes e mais saborosos. Como tudo mais nos mosteiros, isso está em plena sintonia com o evangelho, onde Cristo afirma: “Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não dá fruto ele o corta; e todo ramo que dá fruto, ele o poda para dar mais fruto ainda” (Jo 15, 1-2).

Nossa cidade de Juiz de Fora é agraciada por ter em seu recinto urbano um destes lugares santos, recanto de paz espiritual, de estudo e vivência diuturna da Palavra de Deus, de genuína liturgia, que é o Mosteiro de Santa Cruz, da Ordem Beneditina feminina.  

Na continuidade da obra santa de Madre Paula Iglésias, que conduziu o Mosteiro por 29 anos e depois de seu falecimento ocorrido no dia 23 de abril último, foi eleita nova Abadessa na pessoa de Madre Maria de Fátima, cuja bênção abacial recebeu no dia 9 de junho. Feliz coincidência fez com que esta liturgia viesse a ser celebrada na memória do Imaculado Coração de Maria, pois nada é mais belo que contemplar o coração de uma mãe, melhor ainda sentir o pulsar do coração da Mãe de Deus e nossa, da Mãe da Igreja que é perpétua inspiradora da missão das abadessas, nos cuidados maternos de suas coirmãs, no Mosteiro que Deus lhes entrega para coordenar e presidir. A palavra “abadessa” significa “mãe”, termo originário da língua hebraica. Maria, que se colocou plena e indivisivelmente à disposição do Altíssimo, é o modelo acabado para a vivência do lema abacial escolhido pela nova Abadessa: “A serviço de Deus.

Os mosteiros, locais privilegiados de oração e silêncio, funcionam, na Igreja, como raízes da árvore e alicerce do edifício, pois, ainda que escondidos, são básicos para a vida da mística planta e para a segurança da construção eclesial.

 

 

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