Artigos dos Bispos

Amar a Igreja (2º de 3) O amor tem cheiro de morte. “Ninguém tem mais amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13).

Dom João Bosco Óliver de Faria

Arcebispo Emérito de Diamantina - MG

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07/05/2018 - Atualizado em 07/05/2018 10h03

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O que seria então AMAR A IGREJA?
O amor tem cheiro de morte. “Ninguém tem mais amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13).

Só ama quem é capaz de morrer pelo amado. Os pais, porque amam, não medem os sacrifícios que fazem por seus filhos. Quanta renúncia dos pais para dar aos filhos o que eles, pais, nunca tiveram quando crianças, adolescentes ou jovens. E, sempre pensam que poderiam fazer mais por eles. Isso acontece porque é grande o amor que eles têm pelos filhos. Amar é morrer pelo amado!

O amor matrimonial só cresce e se fortalece enquanto os dois são capazes de renunciar a alguma coisa, a seus interesses ou a um bem estar pessoal em benefício da pessoa amada, quando os dois são capazes de morrer um pelo outro, no dia a dia da vida, em seus trabalhos e nas pequenas ou nas grandes renúncias. Sacrificam-se um pelo outro e os dois pelos filhos. Os casais se separam quando se gostam, mas não se amam. O primeiro que se cansa de ser tratado como coisa desanima e abandona o casamento por falta da força da fé!

Ensinou-nos Jesus: -“Se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só. Se ao contrário ele morrer, produzirá fruto em abundância” (Jo 12,24).

Cristo nos oferece o exemplo, ao dar a Sua vida pela Igreja e por nós, mesmo sabendo que Seu amor não encontraria acolhimento nem retribuição por grande parte de pessoas. Amar é doar-se sem nada esperar como retribuição. Quem ama de verdade, sem nada esperar como retribuição, desconhece a decepção! Quem se decepciona com a Igreja, é porque não a ama, mas gosta dela!... E quando faz algo pela Igreja, na verdade, o faz por si mesmo, na expectativa de alguma vantagem.

O apóstolo Paulo nos dá seu exemplo, quando descreve à Comunidade de Corinto o quanto sofreu pela Igreja: Muito mais do que eles, pelos trabalhos, pelas prisões, por excessivos açoites; muitas vezes em perigo de morte; cinco vezes, recebi dos judeus quarenta chicotadas menos uma; três vezes, fui batido com varas; uma vez, apedrejado; três vezes naufraguei; passei uma noite e um dia em alto-mar; fiz inúmeras viagens, com perigos de rios, com perigos de ladrões, perigos da parte de meus compatriotas, perigos da parte dos pagãos, perigos na cidade, perigos em regiões desertas, perigos no mar, perigos por parte de falsos irmãos; trabalhos e fadigas, inúmeras vigílias, fome e sede, frequentes jejuns, frio e nudez; e,  sem falar de outras coisas, a minha preocupação de cada dia, a solicitude por todas as igrejas (2 Cor 11, 23 – 28)!

O Beato Papa Paulo VI escreveu na sua Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, resultado do Sínodo da Igreja sobre a “Evangelização no Mundo Contemporâneo”,  acontecido em 1974:

Convém recordar aqui, de passagem, momentos em que acontece de nós ouvirmos, não sem mágoa, algumas pessoas – cremos bem intencionadas, mas com certeza desorientadas no seu espírito – a repetir que pretendem amar a Cristo, mas sem a Igreja, ouvir a Cristo, mas não à Igreja, ser de Cristo, mas fora da Igreja. O absurdo de semelhante dicotomia aparece com nitidez nesta palavra do Evangelho: “Quem vos rejeita é a mim  que rejeita” (Lc 10, 16). E como se poderia querer amar Cristo sem amar a Igreja, uma vez que o mais belo testemunho dado de Cristo é o que São Paulo exarou nestes termos: “Ele amou a Igreja e entregou-se a si mesmo por ela” (Ef 5, 25)?[1]

Amar a Igreja significa querer o seu bem, não “por causa de”, mas “apesar de”!
Amar a Igreja, amar a Paróquia, amar a Diocese significa querer o seu bem apesar de seus Bispos, de seus Sacerdotes, de seus Ministros e Agentes de Pastoral, apesar de certas pessoas que pretendem ser as “donas da Comunidade”... e mais atrapalham que ajudam! Aprendi, em minha vida, a amar a Igreja para além daqueles que a representam! Houve pessoas na Igreja que me fizeram sofrer. Elas estão na Igreja, mas elas não são a Igreja! Eu amo a Igreja e por ela, com alegria, tenho dado minha vida nestes 50 anos de sacerdócio, sem contar o longo tempo de seminário pelo qual passei.

Amar a Igreja significa servir a Igreja e não servir-se da Igreja.
Amar a Igreja significa dar a nossa vida pela Igreja. Os religiosos, os consagrados, os sacerdotes renunciaram a ter uma família e a tantos outros bens, por amor a Cristo, ao Seu Reino, à Sua Igreja. Uma das dificuldades que os Párocos encontram na direção de suas Paróquias é a de encontrar pessoas que aceitem participar dos Ministérios e das atividades pastorais. Os leigos que estão comprometidos com suas famílias podem dar um pouco de seu tempo ou de seus bens para que o Reino de Deus, querido por Jesus, aconteça entre nós. Essa é a missão da Igreja. Aqueles que se dedicam às pastorais, aos ministérios, aos movimentos de evangelização, o fazem por amor a Cristo e a Sua Igreja. Amar a Igreja é dar a própria vida pela Igreja, é morrer por Ela. “Cristo também amou a Igreja e entregou Sua vida por ela” (Ef 5,25), lembrou-nos o Beato Paulo VI.

[1] Evangelii Nuntiandi, 16

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