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Reabilitação da política A reabilitação da política inclui urgente e profunda reabilitação moral da cidadania brasileira, particularmente naqueles que se oferecem para representar o povo e a ele servir.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte - MG

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02/03/2018 - Atualizado em 02/03/2018 09h31

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A reabilitação da política é condição primeira para a implementação de novos rumos na sociedade brasileira e, por isso, sua urgência se configura enorme necessidade. Inclui longo caminho de reconstituição e recomposição. Com ressalvas aos que merecem o reconhecimento na história política do Brasil por sua envergadura moral e patriótica, esse processo de reabilitação não dispensa ninguém de uma profunda mudança de hábitos. Rever práticas e procedimentos viciados de indivíduos e funcionamentos institucionais é conditio sine qua non para se alcançar a meta de reabilitar a política. E, aqui, reside um dos maiores obstáculos que se antepõem ao processamento dessa habilitação: os culpados pelos descompassos nunca reconhecem os próprios erros nem fazem mea culpa.

O que se vê é o uso oportunista das delações premiadas, no seu sentido e alcance jurídico próprios, provocado por interesses de caráter individual. Na maioria das vezes, tudo não passa de tentativas para amenizar penas, que logo caem no vazio. As revelações e acusações apresentadas são rebatidas por meio de discursos farisaicos, em que predomina o argumento da inexistência de culpa e de responsabilidades. Mesmo com indícios incontestes, a exemplo da derrocada na economia, nos serviços, nos funcionamentos, e dos enriquecimentos ilícitos, todos afirmam ser inocentes, ilibados e garantem só ter feito o bem.

A reabilitação da política, desse modo, inclui urgente e profunda reabilitação moral da cidadania brasileira, particularmente naqueles que se oferecem para representar o povo e a ele servir, - pois há um sério comprometimento da autoridade política - basta confrontar os resultados das pesquisas que apontam o descrédito em relação àqueles que exercem o poder.

A sociedade brasileira padece das terríveis consequências da falta de coordenação e direção que deveriam partir dos representantes eleitos pelo povo, no sentido de orientar para uma ordem em que as relações, instituições e procedimentos estejam a serviço do crescimento humano integral. Ao contrário, o que se vê é a prática do cartorialismo e a transformação das instâncias políticas em bancas de negócios. Aqui se revela a falta de arcabouço humanístico de quem se submete aos sufrágios eleitorais, seduzido pelos funcionamentos que enjaulam a dimensão partidária no corporativismo, com prejuízos para o conjunto da sociedade. Tudo pela força da ganância, materializada nas práticas de propinas, nas sacolas e malas de dinheiro, cujos donos reclamam e defendem a própria inocência. Triste realidade que comprova o alto grau de patologia que formata a cidadania brasileira.

Desse modo, a reabilitação da política só será possível se tiver como ponto de partida e compromisso permanente a força moral própria da autoridade política, o que demanda uma radical mudança de comportamento por parte de cada cidadão - singularmente o representante político do povo -, no sentido de se deixar guiar pela lei moral, no âmbito privado e público.

O gosto e o cultivo da autoridade moral terão, assim, por consequência, a abominação das práticas equivocadas dos representantes do povo - a exemplo do enriquecimento por meio de privilégios e benesses. Condutas viciadas que cegam e resultam na perda de rumos, na incapacidade de se encontrar soluções e podem ser percebidas pelas péssimas condições dos setores da educação, da infraestrutura e da saúde.

Por isso, o processo de reabilitação ético-moral-cidadã requer, com urgência, a realização da Reforma Política que, lamentavelmente, tem sido tratada com propostas de remodelação - paliativos que não alcançam o cerne dessa problemática, perpetuando procedimentos ineficazes para promover a mudança necessária.

Os estreitamentos advindos da mentalidade alimentada por um partidarismo descomprometido com o sentido amplo de cidadania obscurecem a competência humanística, limitando os horizontes da espiritualidade. O resultado é este: gente sem qualidade para pensar, defender e promover o bem comum. Um grave comprometimento que se revela na dificuldade de pensar a realidade a partir dos pobres, na mediocridade de não saber valorizar e reconhecer a grandeza da própria história, da cultura e do patrimônio de que é depositário.

Essa triste realidade se torna ainda mais preocupante quando se vislumbra o cenário neste ano eleitoral. Impressiona a falta de alternativas, tornando-se oportuna a decisão de não dar voto a quem não pode ser enquadrado nos critérios de verdadeira autoridade moral no mundo da política.

Sabe-se que a reabilitação da política é uma tarefa muito difícil de ser cumprida com vistas às eleições deste ano, exigindo de todos ponderação, reflexão e adoção de critérios que signifiquem avanços. É preciso clareza e serenidade para evitar os extremismos que vêm de diferentes direções,  mostrando o destempero de grupos movidos por radicalismos que desrespeitam a autoridade, os ambientes públicos e privados, alcançando facilmente o nível da patologia - complicador que merece análises e reflexões consistentes, pelo risco iminente de conduzir a sociedade ao caos social, político e cultural da mais alta gravidade.

É hora, pois, de urgentes conversões e aposta no diálogo social como contribuição para a paz, a exemplo do que propõe o Papa Francisco na Exortação Apostólica Alegria do Evangelho. O pontífice destaca a necessidade de profunda humildade social de dirigentes no cuidado e promoção do bem comum, com o esforço de diálogo político e criação de consensos na busca do desenvolvimento integral de todos. Esse processo requer uma grande mudança de estratégias, de mentalidades e de critérios. Exige, sobretudo, sabedoria e devida velocidade, em razão do tempo perdido com os fracassos impostos pela corrupção e pelo jeito torto de se fazer política.

A Igreja não tem as soluções para todas essas questões, mas, em cooperação e diálogo com as forças sociais, está aqui para apoiar as propostas que melhor correspondam à dignidade das pessoas e ao bem comum, na contramão das ideologias políticas e sociais que ferem os valores inegociáveis do Evangelho de Jesus Cristo.  Todos os segmentos da sociedade brasileira precisam agora, decisiva e explicitamente, contribuir para essa inadiável reabilitação da política. É hora de profunda conversão, por humildade social, para a reabilitação da política.


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