Artigos dos Bispos

A nossa lei é a sabedoria de Deus! A Palavra de Deus que nos é proposta apresenta sugestões diversas de conversão e de renovação.

Dom Eurico dos Santos Veloso

Arcebispo Emérito de Juiz de Fora - MG

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26/02/2018 - Atualizado em 26/02/2018 09h42

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A liturgia do 3º Domingo da Quaresma dá-nos conta da eterna preocupação de Deus em conduzir os homens ao encontro da vida nova. Nesse sentido, a Palavra de Deus que nos é proposta apresenta sugestões diversas de conversão e de renovação.

Na primeira leitura (cf. Ex 20,1-17), Deus oferece-nos um conjunto de indicações (“mandamentos”) que devem balizar a nossa caminhada pela vida. São indicações que dizem respeito às duas dimensões fundamentais da nossa existência: a nossa relação com Deus e a nossa relação com os irmãos. Só a amizade de Deus vale na nossa vida. A primeira leitura pode ser um resumo do decálogo. Primeiro devemos temer a Deus, somente a Deus adoramos, porque somente ele é o Deus que age, que tirou Israel da escravidão do Egito. Quando adoramos a Deus devemos amar os nossos irmãos, o amor mútuo. Se amamos a Deus devemos amar aos nossos irmãos. Não adianta rezar se não temos fatos concretos de amizade para com nossos irmãos e irmãs.

Na segunda leitura (cf. 1Cor 1,22-25), o apóstolo Paulo sugere-nos uma conversão à lógica de Deus… É preciso que descubramos que a salvação, a vida plena, a felicidade sem fim não está numa lógica de poder, de autoridade, de riqueza, de importância, mas está na lógica da cruz – isto é, no amor total, no dom da vida até às últimas consequências, no serviço simples e humilde aos irmãos.  Ensina São Paulo que: “Nós pregamos Cristo crucificado […] força de Deus e sabedoria de Deus” (1Cor 1,23). Faz-nos compreender que agora tudo –inclusive a Lei- toma sentido a partir de Jesus Cristo. Nós não estamos mais sozinhos diante a lei; entre nós e o Decálogo existe no meio Jesus Cristo crucificado e ressuscitado. Ele é a “sabedoria de Deus” para nós, isto é, a nossa lei.

No Evangelho (cf. Jo 2,13-25), Jesus apresenta-Se como o “Novo Templo” onde Deus Se revela aos homens e lhes oferece o seu amor. Convida-nos a olhar para Jesus e a descobrir nas suas indicações, no seu anúncio, no seu “Evangelho” essa proposta de vida nova que Deus nos quer apresentar. Quando os judeus, chocados pela violência que jesus demonstra dentro do Templo e, sobretudo pelas palavras, “Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!”(cf. Jo 2,16), pedem a Jesus um sinal que justifique o seu comportamento, ele responde com um desafio m ais chocante ainda: “Destruí vós este templo e em três dias eu o reerguerei”(cf. Jo 2,19). Eles o acham fora de si e tentam explicar a irracionalidade de sua proposta: “A construção deste templo levou quarenta e seis anos, e tu serias capaz de erguê-lo em três dias?”(cf. Jo 2,20). Naquele momento, ninguém, a não ser o próprio Jesus, compreende o significado de sua asserção. O templo a ser destruído e reerguido é seu próprio corpo humano, templo verdadeiro de Deus, do eterno Filho. Misteriosamente, este mesmo templo precisa ser destruído pela morte – não para dar ocasião a um milagre estupendo capaz de convencer qualquer oponente, mas como corpo do Ressuscitado, para ser a presença de Deus para o mundo inteiro, a fonte dos sacramentos com o poder de purificar e vivificar a humanidade inteira. É deste templo, destruído e ressuscitado, que o Espírito Santo será enviado a todos aqueles que crerem. Este Espírito Santo, habitando em nós, nos purificará pouco a pouco, conformando-nos, que somos todos pequenos templos do Espírito Santo, ao próprio Jesus.

No episódio da expulsão dos vendilhões do templo de Jerusalém, ao se referir à sua ressurreição, Jesus deixou claro que Ele era o templo novo e definitivo. Do templo de pedra se passou à noção do templo espiritual. Depois de sua vitória sobre a morte, ressuscitando imortal e impassível, esse corpo, sinal da presença divina neste mundo, conhecendo um novo estado transfigurado, permitirá sua presença em todos os lugares e em todos os séculos através da Eucaristia.

Do antigo templo de Jerusalém nada restará e a destruição da Cidade de Davi no ano de 70 será o sinal de que a casa projetada por Davi e edificada por Salomão tinha cumprido sua missão profética. São Paulo captou esta mensagem de maneira maravilhosa e nas suas Cartas demonstrou que o cristão é ele próprio templo de Deus por ser membro do Corpo de Cristo. E diz aos Coríntios: “Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo?” (1 Cor 6,15) e explicará aos Efésios que os batizados são “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus. É nele que todo edifício, harmonicamente disposto, se levanta até formar um templo santo no Senhor. É nele que também vós outros entrais conjuntamente, pelo Espírito, na estrutura do edifício que se torna a habitação de Deus” (Ef 2,20-22). Se Jesus exigiu respeito ao templo edificado pelos homens, muito mais ele requer acatamento para com a casa espiritual que é o seu seguidor: “Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá.

A única lei de Deus é a da acolhida do diferente e da misericórdia. Nada adianta cumprir ritos, liturgias e celebrar os sacramentos se não acolhemos os nossos irmãos e damos um passo de generosidade e de construção da paz. Destruir o templo e reergue-lo é viver constantemente a lógica da Ressurreição: Jesus vence a morte e nos dá a vida. Se Jesus nos dá a vida e sempre nos dá uma segunda chance, que é de conversão e de mudança de vida, devemos sempre perdoar e acolher, nunca excluindo e sempre caminhando como irmãos, porque só o “Senhor tens palavras de vida eterna!”.

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